
Nunca havia ouvido falar de Alcoi, cujo nome em arabe quer dizer o acampamento, que fica entre Valencia e Murcia, na província de Alicante na Espanha, e é parte da comunidade Valenciana, até descobrir que lá havia nascido o avô da minha esposa. Descobrir onde ele havia nascido foi um mistério que nos perseguiu desde que casamos. Todos da família sabiam que ele era espanhol. O atestado de óbito dele indica que ele era de Valência, nada mais, nem a data de nascimento consta no documento.
Visitamos Valencia por primeira vez com a esperança de encontrar lá o registro de nascimento dele. Mas no registro civil de Valência, que contém livros de registro da cidade e povoados adjacentes, nada havia. Então ficou claro que o avô da minha esposa havia nascido em algum povoado da comunidade Valenciana. Uma agulha no palheiro porque a comunidade Valenciana é enorme, com muitas cidades e vilas, todas elas com pelo menos um registro civil sendo que nas urbes maiores tem até mais que um.
Em uma segunda viagem a Valencia, visitamos algumas cidades próximas, incluindo a cidade de Alzira, objeto de uma outra postagem neste site. No registro civil de Alzira, também nada encontramos e praticamente perdemos as esperanças de saber onde o avô da minha esposa havia realmente nascido.
Até que mais uma vez, os Mórmons ajudaram!

Não sei exatamente porque, mas um dia pesquisando algo sobre e Espanha me deparei uma vez mais com o site dos Mórmons, e por sorte consegui acessar arquivos de censo da comunidade valenciana. Os Mórmons pelo que sei, não puderam copiar os registros de nascimento da Espanha, mas tenazes como são, conseguiram scanear os registros de censos antigos. Mais sorte ainda, o registro que encontrei estava em ordem alfabética e continha além do nome da pessoa, data e lugar de nascimento.
Diziam na família que o avô da minha esposa emigrou para o Brasil quando tinha 17 ou 18 anos. A data do censo que eu estava olhando era de quando ele teria uns 13 ou 14 anos. Foi aí que encontrei o nome dele!
A data de nascimento era praticamente a mesma e o nome da mãe, que na Espanha, como se sabe, faz parte do nome da pessoa, era bem similar ao dele. Importante é que o censo era da cidade de Alcoi.

Tudo indicava que eu o havia finalmente encontrado uma pista específica do misterioso espanhol. Faltava então obter o registro de nascimento para comprovar que a pessoa do censo, era realmente o avô da minha esposa.
Essa etapa foi difícil porque o registro civil de Alcoi não é um dos mais eficientes, haja visto a pífia avaliação que tem no google. Depois de várias tentativas por telefone, email, visitas e pedidos ao site do registro civil, finalmente recebemos o registro de nascimento. Era mesmo do avô da minha esposa.
Bem então caso encerrado?
Claro que não!
Nesse início de ano, visitamos Valencia mais uma vez e depois de uma hora e meia no ônibus interurbano, chegamos a Alcoi, e devido ao horário de volta do ônibus tínhamos disponíveis somente algumas horas para visitar a cidade.
Quando descemos do ônibus pensamos em voltar imediatamente. Um vento frio nos envolveu triturando nossos ossos.
Tentamos descobrir onde era o centro da cidade, perguntamos a várias pessoas. Era longe. Tentamos chamar um Uber, não havia nem Uber nem taxis.
Depois de muito andar, congelados, praticamente arrependidos de haver tentado essa aventura, encontramos um ponto de taxi e imediatamente subimos no carro que estava à frente, assustando o motorista que parecia absorto, talvez até tirando uma soneca. O diálogo que seguiu foi mais ou mentos assim.
“Bom, dia!”
“Bom dia,” respondeu o taxista e ligando o carro perguntou “Aonde querem ir?”
“Senhor, deixe me explicar. Estamos sem destino.”
“Sem destino?” Perguntou o taxista perplexo.
“Sim. Veja agora são 11 horas, vamos ter que tomar o ônibus de volta a Valencia as 14:45, então durante esse período gostaríamos que você nos mostre tudo sobre Alcoi.”
O motorista não escondeu sua alegria. Não creio que ele consiga corridas assim frequentemente.
Nós também estávamos contentes. O taxi era aquecido e aquele arzinho quente começou a derreter a camada de gelo que havia se formado no tutano dos nossos ossos.
O motorista de taxi provou saber tudo sobre Alcoi, e nos informou que a cidade tem uma população estável de aproximadamente 60 mil pessoas, que vem se mantendo nesse nível por décadas.
Primeiramente nos levou ao alto de uma das várias montanhas que circundam o povoado para podermos avistar a cidade bem do alto. Em cima da montanha encontramos construções de um antigo instituto de prevenção para pacientes com tuberculose, hoje descontinuado, chamado de “Preventório de Alcoy”. Foi construído ali porque o ar é mais fresco e para separar os doentes dos habitantes da cidade na época em que não havia remédio eficaz para essa doença.

Ao lado do preventório, fica a Ermita San Cristóbal e o Mirador de las Buitreras, que dá uma vista total da cidade. Fomos informados pelo motorista que Alcoi tem o apelido de cidade das pontes, pelo grande número dessas construções, que facilmente pudemos avistar de onde estávamos. Alcoi tem aproximadamente 40 pontes, devido a confluência dos rios Riquer, Benisaidó y Molinar, afluentes do rio Serpis, que passam pela cidade.
Do mirador, descemos ao povoado, visitamos algumas das pontes, e também a parte central da cidade. Ali o motorista nos informou que Alcoi por muito tempo um importante polo da indústria têxtil espanhola, com várias fábricas construídas perto dos rios. Isso nos levou a pensar que o avô da minha esposa talvez tivesse trabalhado em alguma destas fábricas antes de se aventurar em cruzar o Atlântico e se estabelecer no Brasil.

Ficamos sabendo pelo motorista que Alcoi é uma cidade de festas que os habitantes gostam de comemorar. Entre as festas mais importantes estão a festa dos reis magos, moros e cristianos, ou seja, luta entre cristãos e muçulmanos e as “fallas”, que é uma festa de fogueiras. Não deixem de ler a postagem neste site chamada “Ninots de Fogo de Alzira”, para entender melhor o que é essa festa, celebrada em muitas cidades da comunidade valenciana.

Estávamos na metade do mês de janeiro e a cidade ainda mostrava as decorações para a festa dos reis magos. Nos chamou a atenção que algumas janelas dos prédios tinham atreladas um boneco imitando uma pessoa de cor negra. Depois ficamos sabendo que esses eram os “pajens” dos reis magos, incumbidos de entregar os presentes às crianças da cidade e vinham armados de escadas para escalar a fachada dos prédios. Achamos a explicação memorável, porque nos dias de hoje, seguramente em outro lugar isso seria considerado racismo, e também porque na tradição nossa, isto é, minha e da minha esposa, presentes de natal são entregues pessoalmente pelo papai Noel.


A chamada “cavalcada dos reyes magos,” ou cavalgada dos reis magos, é impressionante. Parece um desfile de escolas de samba. Cada um dos reis magos vem com sua comitiva, todos a caráter adornados com fantasias de fazer inveja. Junto a eles, os pajens para entregar os presentes.
A festa “moros e cristianos” então é maior ainda. Vários grupos, parecendo alas de escolas de samba, fantasiados de árabes e cristãos desfilam pela cidade até se encontrar em batalhas corpo-a-corpo com espadas e sabres. Uma festa impressionante.

Como estávamos no centro decidimos visitar o museu arqueológico de Alcoi que ficava nas imediações. Foi uma visita muito que nos impressionou. Ficamos sabendo pelos registros arqueológicos que as cavernas que existem em torno da cidade foram usadas há 60 mil anos atrás, ou quem sabe até antes, por caçadores, ancestrais dos humanos atuais, como os neandertais e pré-neandertais. O museu, entretanto, mostra muito mais, mostra objetos e estudos sobre os vários povos que passaram pela região. São muitas as civilizações que passaram por Alcoi, como por exemplo, os Iberos, Fenícios, Cartaginenses, Romanos, Alanos, Visigodos, Bizantinos, e mulçumanos que foram expulsos da região em 1276 por Jaime I de Aragón, depois de várias batalhas com os árabes. Essas batalhas que duraram anos são a inspiração para a festa “moros e cristianos.”

O núcleo urbano da cidade teve seu começo vinte anos antes da expulsão dos árabes, logo após Jaime I iniciar as guerras de Reconquista na região.

Um fato histórico interessante e uma curiosidade sobre Alcoi foi a chamada “Revolució del Petroli ,” Revolução do Petróleo, onde por alguns dias Alcoi se tornou em termos práticos um país independente. Foi no ano de 1873, quando o presidente da câmara municipal ordenou que se disparasse contra os operários das fábricas da cidade que estavam em greve. Os operários revoltados invadiram o edifício da câmara, mataram o presidente e mutilaram seu cadáver. Alcoi se declarou independente e foi governada por comité durante o período de 9 a 13 de julho de 1873 até a chegada das tropas federais que puseram fim a essa aventura separatista.
Infelizmente nosso tempo em Alcoi acabou, só pudemos parar para tomar um café e comer um “bocadillo de jamón,” sanduíche de presunto ibérico, conversar um pouco mais com o motorista. Ele logo nos deixou de volta à estação de ônibus
A Alcoi de hoje, traz consigo uma riqueza imensa dos povos por ali passaram através dos séculos. Uma pena que tivemos tão pouco tempo para explorar a cidade e sua cultura. Ficou a vontade de voltar.
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