Mistérios do meu bisavô

Como gostaria que minha mãe estivesse viva para ler essa história.

Lembro do meu bisavô vagamente, eu o encontrei somente uma vez, quando tinha por volta de 11 anos, mas me lembro muito bem do encontro por causa do acidente que me deixou sem a unha do meu dedão do pé.

Minha mãe se referia a ele como Nono e isso me intrigava porque nono é uma palavra italiana, mas o meu bisavô, eu sabia, havia nascido em Portugal. Mais tarde quando me dei conta que minha avó, mãe da minha mãe, que eu nunca cheguei a conhecer, era de família italiana, ficou fácil de imaginar como ela se referia ao meu bisavô, e isso creio eu, é a razão pela qual minha mãe o chamava de Nono.

Outra característica da minha mãe, que ela deve ter herdado da mãe dela, era o gosto por vasos de flores enfeitando as paredes de fora da casa. Assim como se faz na Itália. Alguns destes vasos eram feitos de latas de azeite abertas horizontalmente, sendo que a aba aberta servia para pendura-los na parede. Foi exatamente um destes improvisados vasos o responsável por substituir minha unha do dedão do pé por uma nova.

Eu e minha irmãs ficamos muito animados com a chegada do meu bisavô e fomos correndo até o portão encontra-lo e segurando sua mão o levamos até a porta de entrada da nossa casa. Para entrar havia um degrau e eu estava bem ao seu lado, contente, quase tentando entrar na casa junto com ele. O meu bisavô para se apoiar colocou a mão em um daqueles vasos, o maior deles, que imediatamente despencou da parede e caiu bem em cima do meu dedão. Eu perdoei o meu bisavô em seguida, mas nunca mais me esqueci da sua visita.

Bem mais tarde, quando por iniciativa do meu filho, comecei a pesquisar as origens da nossa família, debruçado nas informações que tinha notei que este meu bisavô era mais novo do que o meu avô por parte de pai. Achei isso misterioso, mas o mistério se desfez quando obtive mais informação deles. Até escrevi uma historieta sobre esse fato que está publicada no meu livro Paixão & Humor.

O maior mistério sobre o meu bisavô, permaneceu por muitos e muitos anos. Ninguém sabia exatamente onde em Portugal ele havia nascido. Quando finalmente consegui o atestado de óbito dele, fiquei sabendo que ele havia nascido na província de São Pedro, mas isso não ajudou em nada, porque não consegui encontrar nenhuma província com este nome em Portugal. Também foi infrutífera minha pesquisa nos arquivos de Coimbra, onde em conversa com minha mãe ela me havia informado que meu bisavô era de lá.

Nos últimos anos muitos brasileiros emigraram para Portugal. Vários não conseguiram se estabelecer, mas fiquei sabendo de uma advogada brasileira que vive em Portugal, tem negócios no Brasil e ajuda com pesquisa de documentos de Portugueses. Sem muita esperança, contratei os serviços desta advogada para tentar conseguir o registro de nascimento do meu bisavô.

Para minha surpresa, ela não só conseguiu encontrar o lugar exato onde ele nasceu como também os registros de batismo do meu bisavô e de um irmão dele de quem eu nunca havia ouvido falar. Como é sabido, na época do nascimento do meu bisavô, final do século 19, não havia em Portugal registros civis de nascimento, isso era feito pela igreja quando a criança era batizada.

Fiquei sabendo que ele nasceu na Freguesia de São Pedro de Alva, Concelho de Penacova, Distrito de Coimbra, no dia 16 de abril de 1884, e o batismo está registrado em uma igreja de nome interessante, quase cômico. Igreja Paroquial de Farinha Podre. Pretendo algum dia visitar esta igreja para tentar entender o porquê deste nome. Tenho certeza que há uma história atrás disso.

Mas os documentos que me entregou a advogada, revelaram um mistério ainda maior sobre meu bisavô. Um mistério que pensei em um primeiro momento, trazia implicações para todos os seus filhos, netos e futuros descendentes!

Como posso explicar?

O meu bisavô quando imigrou para o Brasil, não só mudou de país, mas também mudou de família e não só isso, sua data de nascimento, não coincidia por alguns dias da data que me haviam informado, era sua data de nascimento. Entretanto, a implicação para os filhos, netos e descendentes é que meu bisavô passou a ter um novo sobrenome!

No início pensei que o registro de batismo encontrado em Portugal não era o dele. Mas depois, analisando mais detalhamento os documentos que a advogada me enviou concluí que eram dele mesmo.

Meu avô tinha no Brasil o nome de Antônio Henrique dos Santos, mas seu registro de batismo em Portugal indicava claramente que seu pai se chamava Serafim (ou Seraphim) de Brito. Seu avô se chamava José de Brito, então como ele poderia ter o nome Henrique dos Santos? Não fazia sentido nenhum.

O sobrenome de Brito, não me era estranho, não sabia porquê, talvez algum dia minha mãe tenha mencionado, não sei. Mas ficou claro que realmente o pai do meu bisavô se chamava Serafim (Seraphim) de Brito quando olhei os detalhes do registro de nascimento de dois dos seus filhos, o meu avô e minha tia-avó, que foram redigidos é claro na presença do meu bisavô, que inclusive assinou os assentos. Estes registros indicam que o avô das crianças, no caso o pai do meu bisavô, sem dúvida se chamava Serafim (Seraphim) de Brito. Ficou então esclarecido e documentado quem era o pai do meu bisavô.

Mas, porque então o meu bisavô se chamava Antônio Henrique dos Santos e não Antônio de Brito? Isso precisava ser esclarecido!

Para desvendar esse mistério foi preciso um pouco de imaginação e algumas evidências

A certidão de batismo do irmão do meu bisavô, o José de Brito, indica que um tal de Justino Henriques dos Santos foi padrinho do batismo, então creio que havia um relacionamento em Portugal entre as famílias de Brito com as famílias Henrique ou Henriques dos Santos.

Naquela época os imigrantes europeus que chegavam ao Brasil pelo porto de Santos eram encaminhados ao Alojamento Provincial de Imigração da cidade de São Paulo. Procurando a lista de imigrantes daquela entidade, encontrei uma família que emigrou de Portugal cujo líder era um tal de José dos Santos, que veio com filhos, sobrinhos e também um irmão. Na lista está incluída uma criança de quatro anos chamada Antônio, a idade do meu bisavô na época, e também um sobrinho de sobrenome Henrique.

Não tenho absoluta certeza que o meu bisavô fazia parte desta família, mas é provável. Como ele tinha somente quatro anos é possível, que mesmo sem ter sido oficialmente adotado, tenha sido registrado no Brasil com o nome de Antônio Henrique dos Santos. Indo mais além, posso imaginar que o José dos Santos e a sua esposa eram parentes do Serafim (Seraphim) de Brito ou melhor da sua esposa Clementina Maria, aos quais meu bisavô foi entregue, quando estes decidiram imigrar para o Brasil.

Nunca vou saber com certeza o que levou o meu bisavô a mudar seu sobrenome, mas está claro que quando ele chegou no Brasil, mudou de país e também de família.

De qualquer forma, eu prefiro o sobrenome brasileiro dele porque Antônio Henrique dos Santos soa muito melhor do que Antônio de Brito. Mas prefiro mesmo chama-lo de Bisnono, para seguir a tradição italiana.

Resta ainda um último mistério sobre meu bisnono que acho vai difícil de desvendar.

Minha avó com quem ele se casou quando tinha dezoito anos de idade, pelo que sabemos ou era índia brasileira ou filha de índios. Hoje em dia já não se diz índios brasileiros ou mesmo ameríndios, mas povos originais. Para mim não faz diferença. Sinto muito orgulho de ter um pouco de sangue dos povos que habitaram o Brasil antes da chegada dos europeus. Estou certo dessa ancestralidade porque o resultado de um exame de DNA que fizemos meu filho e eu, mostra claramente que uma parte pequena do nosso DNA vem da américa.

Meu filho e eu gostaríamos muito de saber mais detalhes da minha avó e da família dela, a tribo a qual a família pertencia, a língua que falavam, a história da etnia, entretanto muito pouco, quase nada, das famílias indígenas é documentado, por isso a dificuldade.

Quem sabe algum dia vamos desvendar mais este mistério do meu bisavô.

Tem uma estória para contar? Envie-nos um email e publicaremos.

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